Suspeitos do ataque ao 'Charlie Hebdo' mantinham refém em empresa. Em Paris, homem que matou policial mantinha clientes em mercado.
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| Momento do ataque policial para invadir o mercado kosher onde pessoas eram feitas reféns foi captado por vídeo da France Presse (Foto: Gabrielle Chatelain/AFP) |
Os dois supostos autores do atentado ao jornal se entrincheiraram nesta sexta-feira (9) com um refém em uma pequena empresa em Dammartin-en-Goële, a 40 km de Paris, após um tiroteio com as forças de segurança.
No mercado judaico de Porte de Vincennes, alguns reféns foram libertados com vida, mas quatro reféns que eram mantidos por Amedy Coulibaly morreram. Coulibaly é suspeito de ter matado uma policial na véspera e que afirmou estar "sincronizado" com os suspeitos do ataque ao jornal "Charlie Hebdo".
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| Hayat Boumeddiene (Foto: Reuters) |
A polícia procura agora uma mulher de 26 anos, Hayat Boumeddiene, por associação com Amedy Coulibaly, o sequestrador que foi morto no mercado de Vincennes. O "Le Monde" afirma que Boumeddiene não estava presente no sequestro.
Boumeddine é considerada suspeita, junto com Coulibaly, da morte a tiros da policial Clarissa Jean-Phillipe na quinta-feira (8). O jornal francês diz que Boumedienne se relacionava com Coulibaly desde 2010.
Em mensagem de áudio à TV BMFTV, Coulibaly disse que estava "sincronizado" com os suspeitos do ataque ao "Charlie Hebdo".
Em pronunciamento nacional após a ação policial, o presidente francês, François Hollande, disse que a França conseguiu enfrentar o atentado terrorista, mas que as ameaças ao país não terminaram.
Tiros e explosões foram ouvidos por volta das 14h (horário de Brasília) desta sexta-feira (9) no local do cerco aos irmãos Kouachi. A mesma agência informou que quatro explosões foram ouvidas nas imediações do mercado de comida judaica em que uma dupla mantinha reféns clientes.
Como começou
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| Diversos reféns são retirados pela polícia de mercado kosher em Paris (Foto: Thomas Samson/AFP) |
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| Amedy Coulibaly (Foto: Reprodução) |
O ataque ao jornal aconteceu na manhã de quarta-feira (7) na sede do jornal, que já havia sido alvo de um ataque no passado após publicar uma caricatura do profeta Maomé.
Os dois supostos autores do massacre se entrincheiraram nesta sexta-feira (9) com um refém em uma pequena empresa a 40 km de Paris, após um tiroteio com as forças de segurança.
A busca pelos suspeitos passou antes pelas regiões de Villers-Cottêrets, onde os suspeitos foram vistos, e Crépy-em-Valois, antes de ser direcionada a Dammartin-en-Goële. Incidentes localizados foram reportados em Paris na quarta e quinta-feira, incluindo a morte de uma policial em Montrouge.
Esse policial teria sido morto por Amedy Coulibaly, como se suspeitava, segundo fontes do jornal "Le Monde". Culiblay é o sequestrador morto no mercado Porte de Vincennes.
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| Chérif Kouachi e Said Kouachi, suspeitos do ataque à revista 'Charlie Hebdo' (Foto: Reuters) |
Os dois irmãos franceses filhos de argelinos já estavam sob observação da polícia.
Segundo a agência Associated Press, Chérif foi condenado em 2008 a três anos de detenção por acusações de terrorismo (dos quais cumpriu 18 meses), após ajudar a enviar voluntários para lutar no Iraque.
Em seu julgamento, ele disse à corte que “realmente acreditava” na ideia de combater as forças aliadas aos EUA no Iraque. Segundo o jornal "Guardian", na época, ele alegou que havia ficado revoltado ao ver imagens na TV de prisioneiros iraquianos sendo torturados por norte-americanos na prisão de Abu Ghraib.
A agência de notícias Reuters informou que Said Kouachi visitou o Iêmen em 2011 e se encontrou com o pregador da rede Al-Qaeda Anwar al Awlaki, que está morto, durante sua estadia no país.
Segundo a agência, Said esteve no Iêmen por vários meses em 2011 como um dos estrangeiros que entraram no país para realizar estudos religiosos, mas não houve informação confirmada sobre ele ter sido treinado pela Al-Qaeda na Península Arábica (Aqap), um dos braços mais ativos do grupo militante.
Outro suspeito, Hamyd Mourad, de 18 anos, se apresentou à polícia na quarta-feira em Charleville-Mézières. Segundo a agência Associated Press, ele decidiu se entregar após ver seu nome associado ao caso em redes sociais, mas alega inocência.
Vítimas
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| Pessoa ferida na sede da revista satírica 'Charlie Hebdo', em Paris, é socorrida após ataque a tiros deixar mais de 10 mortos e vários feridos (Foto: Philippe Dupeyrat/AFP) |
Todos os mortos foram identificados. As vítimas da revista são: o editor e cartunista Stéphane Charbonnier (conhecido como Charb), os cartunistas Wolinski, Jean Cabu e Bernard Verlhac (conhecido como Tignous), o desenhista Phillippe Honoré, o economista e vice-editor Bernard Maris, o revisor Mustapha Ourad e a psicanalista Elsa Cayat, que escrevia uma coluna quinzenal.
As demais vítimas, segundo o jornal Le Monde são: o policial Franck Brinsolaro, morto dentro da redação, o agente Ahmed Merabet, morto na rua durante a fuga dos atiradores, o funcionário da Sodexo que trabalhava no prédio Frédéric Boisseau, e um visitante da redação, Michel Renaud.
Outras 11 pessoas ficaram feridas, sendo 4 em estado grave, de acordo com a agência Reuters. Entre elas, estaria o jornalista Philippe Lançon, crítico literário do jornal "Libération" e que também escreve ao "Charlie Hebdo".
O jornalista Laurent Léger sobreviveu ao atentado e contou sua história à rádio francesa “France Info”. “No inicio, pensei que eram fogos de artifício. Então ouvi passos. Ainda me pergunto como consegui escapar”, disse ele.
Tiros na redação
Os atiradores encapuzados invadiram a redação por volta das 11h30 locais (8h30 de Brasília). Eles teriam ameaçado de morte a cartunista Corinne Rey para liberar o acesso ao prédio. Ela contou ao jornal "l'Humanite" que sobreviveu ao se esconder debaixo de uma mesa.
Corinne relatou que a ação durou cerca de 5 minutos. Os terroristas estavam armados com rifles russos Kalashnikov, segundo o jornal "The Guardian". Eles falavam francês fluentemente e perguntavam por algumas pessoas pelos nomes, antes de matá-las. Os criminosos gritaram "Vingamos o Profeta!", em referência a Maomé.
Religiosos eram alvos preferenciais das sátiras e críticas do "Charlie Hebdo", assim como políticos e empresários.
O momento da fuga foi registrado por um cinegrafista amador que estava num prédio ao lado. O vídeo mostra os terroristas atirando a queima roupa no segurança Ahmed Merabet, mesmo ele fazendo gesto suplicando para não morrer.
Na sequência, eles entram num carro preto. Durante a fuga, bateram em outro carro, abandonaram o veículo, renderam um motorista e seguiram em direção ao norte de Paris, segundo o promotor de justiça François Molins.
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| O presidente francês François Hollande discursa no Palácio do Eliseu, em Paris (Foto: Philippe Wojazer/Pool/AFP) |
Terrorismo
O presidente francês, François Hollande, fez um pronunciamento à nação na quarta-feira em que classificou a tragédia como "ataque terrorista". Ele pediu união da população para enfrentar a situação, declarou luto nacional por 3 dias e prometeu resposta à altura aos terroristas.
Após o ataque, a França elevou o nível de alerta ao máximo. Tropas das Forças Armadas passaram a fazer segurança em diversos pontos turísticos, como a Torre Eiffel, e locais públicos, como o sistema de transporte.
De noite, 100 mil pessoas saíram às ruas de Paris em solidariedade às vítimas, com velas, flores e cartazes. A frase símbolo da manifestação se tornou "Je suis Charlie" (em português "eu sou Charlie").
O ato foi organizado pelas redes sociais e foi acompanhado por movimentos menores em diversas partes do mundo, inclusive em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Diversos cartunistas no mundo inteiro publicaram desenhos em repúdio ao atentado e em apoio à liberdade de imprensa., entre eles Arnaldo Branco, quadrinista do G1.
Governantes, entidades e personalidades divulgaram repúdio ao atendado, como o Conselho do Culto Muçulmano, a Liga Árabe, Al Azhar, principal autoridade sunita, o Papa Francisco, a ONU, Barack Obama, Dilma Rousseff, Angela Merkel e David Cameron.
O jornal
O "Charlie Hebdo" tem sido ameaçado desde que publicou charges do profeta Maomé em 2006. A sede foi alvo de um ataque a bomba em novembro de 2011, após colocar uma imagem satírica do profeta Maomé em sua capa.
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| Última charge de Charb (Foto: Reprodução/Twitter) |
Outra coincidência é que a revista fez a divulgação em sua edição desta quarta-feira do novo romance do controvertido escritor Michel Houellebecq, um dos mais famosos autores franceses no exterior. A obra de ficção política fala de uma França islamizada em 2022, depois da eleição de um presidente da República muçulmano.
"As previsões do mago Houellebecq: em 2015, perco meus dentes... Em 2022, faço o Ramadã!", ironiza a publicação junto a uma charge de Houellebecq.

Reprodução:G1







